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5 de out de 2009

ATUALIZANDO A SITUAÇÃO DAS "CRIANÇAS-BRUXAS" NA NIGÉRIA

Por Faith Karimi, em 18 de maio de 2009
Abusos de crianças "feiticeiras" aumentam, afirma grupo...
(CNN) -- Christian Eshiett era um agitado pré-adolescente que gastava muito tempo aprontando artimanhas com seus amigos no Sul da Nigéria. Ele "furava" as aulas da escola e fugia de casa por dias a fio, frustrando seu avô, que cuidava do garoto.

"Eu lhe espancava fortemente com canas até que as quebrasse, mas nunca soltou uma lágrima," disse Eshiet Nelson Eshiett, 76. "Um dia eu apanhei uma vassoura para bater nele e começou a chorar. Sabia então que estava possesso por demônios... bruxos Nigerianos tem medo de vassouras."

Desde aquele dia, dois anos atrás, Christian, agora com 14 anos, foi rotulado de bruxo. O abuso intensificou-se.

"Eles tiravam a minhas roupas, me amarravam e me batiam," disse ele ao CNN em uma entrevista telefônica.

O adolescente é uma das assim-denominadas "crianças feiticeiras" em Eket, uma cidade no estado Nigeriano de Akwa Ibom, que é rico em petróleo.

Eles são acusados de causarem doenças, fatalidades e destruição, incitando algumas comunidades a fazê-los passar por dolorosos castigos para os "purificar" de seus supostos poderes mágicos.

"Crianças acusadas de bruxaria são freqüentemente encarceradas em igrejas por semanas a fio; espancadas, famintas e torturadas para que delas seja extraída a confissão," disse Gary Foxcroft, diretor de programa da Stepping Stones Nigéria, uma ONG que ajuda supostas crianças feiticeiras da região.

"Muitas das vítimas tem características que os distinguem, incluindo debilidades cognitivas, obstinação e doenças como epilepsia" - adicionou ele.

A questão das "crianças feiticeiras" está disparando na Nigéria e em outras partes do mundo, afirmou Foxcroft.

"Os estados de Akwa Ibom e Cross River tem algo como 15.000 crianças rotuladas de feiticeiras, e a maioria delas acabam abandonadas e abusadas nas ruas" - disse ele.

Christian fugiu de casa e perambulou por dois anos com outras crianças, semelhantemente acusadas. Ele disse que roubavam, pediam comida e faziam trabalhos pequenos para sobreviver.

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Crença em bruxaria viceja ao redor do mundo. Cerca de 1.000 pessoas acusadas de serem feiticeiras na Gâmbia foram presos em centros de detenção em Março e forçados a beber uma perigosa poção alucinógena - disse a organização de direitos humanos Amnesty International.

Em 2005, parentes de uma menina Angolana de 8 anos de idade vivendo na Inglaterra, foram condenados por torturar a criança por ser uma "feiticeira", de acordo com o Times Online.

“Pastores têm sido acusados de piorar o problema. Afirmando possuírem os poderes de reconhecer e exorcizar as "crianças feiticeiras", por uma quantia" - disseram trabalhadores de assistência.

Mas alguns são genuinamente crentes, como um ministro em Lagos, Nigéria. Ele separa as crianças afetadas pela bruxaria de graça - segundo ele.

“Ás vezes, temos um sonho que nos revela que certa pessoa está sofrendo de feitiçaria," disse o Rev. Albert Aina, um pastor titular da Igreja do Evangelho Quadrangular. "Ás Vezes, você tem uma criança com marcas inexplicáveis no corpo por causa de pelejas noturnas. São fáceis de identificar, mas para quê cobrar se você recebeu um dom da parte de Deus?" disse Aina.

Quando uma criança é rotulada de feiticeira, o estigma pode perdurar para sempre.

Christian foi reconciliado com seu avô, anteriormente um instrutor de teatro em uma universidade da Nigéria. Eshiett disse que permitiu o retorno de seu neto porque o ama e defende a educação juvenil. Mas acrescentou que não acha que Christian foi ou jamais será liberto da feitiçaria.

"Quando você está possesso, você está possesso; ninguém pode libertá-lo de Satanás," afirmou Eshiett, acrescentando que seu neto é, de fato, um feiticeiro porque ainda exibe um comportamento desregrado e não leva a educação a sério.

Organizações de assistência reconhecem que a crença é aceitável e popular em algumas comunidades.

"Não é a crença na feitiçaria que nos preocupa," afirma Foxcroft. "Reconhecemos o direito de manter a crença, na condição de que não conduza a abuso infantil."

Foxcroft, cujo documentário "Salvando as Crianças Feiticeiras da África" foi lançado no ano passado, discursou para um painel da ONU a respeito da questão no mês de Abril de 2009.

Gary Foxcroft disse que está planejando uma conferência global em 2010 e campanhas de consciência pública, inclusive abordando o assunto em filmes Nigerianos. A indústria nacional de filmes, chamada Nollywood, é uma forma popular de entretenimento em países Africanos.

Oficiais do governo também se uniram ao pleito. O estado de Akwa Ibom recentemente adicionou uma cláusula no Ato de Direitos da Criança, estipulando que qualquer pessoa culpada de rotular uma criança como feiticeira, pegará pena de até 12 anos de prisão.

Mas, acrescentou: "Há mais trabalho a ser feito, e outros grupos, especialmente as igrejas, precisam se unir para resolver o problema".

"O papel da comunidade Cristã internacional nesse caso não pode ser subestimado," disse Foxcroft. "Infelizmente, o fato permanece como está porque este sistema de crença está sendo espalhado por estes assim-chamados Cristãos."

Tentativas da CNN de contatar oficiais do estado de Akwa Ibom através de ligações telefônicas e e-mails foram sem sucesso. Um oficial federal de comunicações Nigeriano declinou comentário.

• Tradução: Joel Jr (Caminho - Flórida)
• Grifos nossos.
• Matéria original:
• http://edition.cnn.com/2009/WORLD/africa/05/18/nigeria.child.witchcraft/index.html

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