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11 de jan de 2010

O sol: dono da África, da pele, dos peixes, da feira!


Africa Central, Sul da Nigéria - Outono de 2010
Não chove aqui. Nunca. Nem uma gota.
O Sol também não brilha. Onipresente, fica cinicamente disfarçado sob um manto cinza-amarelado que se debruça violento sobre tudo e todos.
Estamos numa estufa. Os sentidos fervem. O sol africano entorpece a razão e deixa a paisagem e os rostos parecidos com ele próprio: secos, rígidos, hostis e à flor da pele.
A região é petrolífera, o ar cheira querosene e no horizonte as refinarias cospem o fogo que jamais se apaga. Mas a vegetação é teimosamente vigorosa! Cresce sem restrição! Para cima, para qualquer lado... Para todos os lados! A mata se joga sobre as ruas. Não há calçadas, somente um tapete esburacado de asfalto estreito, sobre o qual desfila uma infinidade de motos, carros e gente. Tantas motos quantas nem São Paulo nunca viu! Tanta gente sobre as motos como nunca se pensou no Brasil: são sempre de 3 a 6 pessoas; e todos seguem numa caravana completamente destituída de sinais de trânsito, faixas de pedestres, capacetes, limites de velocidade, vias preferenciais e qualquer outra coisa que seja minimamente orientadora. O caos se auto-organiza. A bagunça é harmoniosamente regulada pelas buzinas que tocam o tempo todo. Ganha quem buzina mais, melhor, antes, sei lá... Há uma orquestra de buzinas sem maestro algum comandando a rural-urbanidade do lugar.

As casas comerciais são baixas, pequenas, escuras e tem suas placas comidas pela ferrugem. Mas nada é mais peculiar do que as feiras livres.

***

Meio-dia. A sauna seca foi ligada lá fora!

Dentro do carro, estou suando mais que em toda a vida, transpiro sal. O ar entra quente pelas narinas e mal posso abrir os olhos. Evito me mexer... Vejo tudo ao redor:

O carro não anda. Não tem espaço para circular. Estamos enfiados no meio da feira e as barracas invadem a rua, enfiadas entre os carros. O povo também invade a rua, carregando sobre a cabeça os sacos, as lenhas, o mundo! Não há miséria. Ninguém passa desnutrido.

E só há negros mesmo; não vi um branco ainda... Nem um único. Não há muitos idosos tampouco. Morrem antes. A vida é dura!

Enquanto todos olham para mim, “alvo mais que a neve”... Eu olho para tudo. As coisas aparecem diante de mim como flashs, quadros, retratos amarelos, pinturas envelhecidas encardidas de tempo e sol...

Tem um porco inteiro sobre a bancada. O rasgo fundo no pescoço é a única marca que o distingue do animal vivo. Daqui a pouco ele estará deformado a gosto do cliente, fatia por fatia. No chão, blocos de carne vermelha vão sendo defumados. O sol dá conta de tudo. As moscas dão conta da carne. Moscas. Tantas moscas como motos.

Mas a melhor exposição é a dos peixes. Mal podemos identificá-los. Não tem peixe fresco... Estão todos carbonizados, parecem de plástico enegrecido, torraram completamente, viraram esculturas mumificadas com olhos de vidro.

No demais, há muitas especiarias de sarcófago e gritos de briga. Ninguém leva desaforo pra casa. Ninguém guarda desaforo no coração. Tudo segue... Todos falam alto e ao mesmo tempo. O tempo que nem parece o mesmo, aliás... Pareço estar fazendo uma viagem ao passado. Lembro dos filmes de época que retratam os mercados a céu aberto nas cidades européias da Idade Média. Um frenético “zanzar” para se buscar o pão de cada dia, o arroz e os grãos todos, que aqui se comem com as mãos.

Até onde percebi, não há sanitarismo algum aqui no estado de Akwa Ibom. Não existe rede de esgoto, só existem fossas. E nem um único cesto de lixo. E o lixo... O lixo vai sendo socado contra a areia do chão à medida que se caminha sobre ele. Não demora a virar uma coisa só... Pisado! O chão e o lixo. O solo e seu adubo. Areia e plástico.

O carro segue. Sinto o vento quente entrar pela janela. O sol pousa no carro e abre as asas sobre nós. Fecho os olhos, escondido... (Confesso que a gente nunca se entendeu muito bem! Mas dessa vez, é óbvio que ele está me perseguindo! Só pode!)

Vou fingindo que não é comigo! Logo mais, fim da tarde, o sol – ele mesmo – também vai se cansar da própria fúria e exibir-se, lindo, como uma imensa bola laranja se escondendo no horizonte! Logo mais virá a noite de candeeiros, sem luz elétrica nas ruas.

Minha pequena caravana também segue adiante.

Procurando o futuro.

Marcelo Quintela (Way to the Nation)
Um dia desses/Janeiro de 2010
EKET, no Delta do Rio Niger


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