COMPARTILHANDO FATOS, IDÉIAS E VIDA ENQUANTO CAMINHAMOS

3 de fev de 2010

DIÁRIO 25 | E CAIU AOS PÉS DO SENHOR A COLUNA QUE NÃO ERA DO MAL, MAS DA IGNORÂNCIA!

Havíamos acabado de visitar uma igreja na vila de Esit-Eket de onde também haviam saído duas crianças para o orfanato do Sam, acusadas de serem bruxos pelo próprio pai. A Diana, da Stepping Stone Nigéria, nos disse que Esit-Eket parace competir com a vila de Oron para ver quem mais rotula crianças como bruxos. Então, resolvemos aproveitar e ir visitar a comunidade e nos dirigíamos através da única rua “asfalto-esburacada” da vila, procurando uma estrada de terra que nos levasse mais para dentro da vila, na alma do povo, aonde pudéssemos visitar e falar de casa em casa.
Mas de repente, ali mesmo, do lado esquerdo da pista, observamos uma pequena feira, daquelas onde se vende comida exposta sobre esteiras de vime estendidas no chão e não resistimos a idéia... “Vamos parar aqui e falar onde já há bastante gente ao invés de bater de porta em porta hoje”. O grupo foi unânime, e o Emmanuel, nosso ‘motorista’, fez um retorno ali mesmo e foi adentrando com o carro pela feira que estava concentrada no canto esquerdo de uma grande área de terra batida cercada por muros velhos e portões enferrujados que certamente não fecham mais.



Estacionamos o carro no canto direito da feira, saímos e começamos a pensar numa estratégia de aproximação para abordar o povo que naquela altura já tinha todos os olhos voltados para aquele carro de onde não parava de sair ‘white-men’. De repente nosso guia daquele dia, o pequenino gigante Victor, que trabalha voluntariamente para o orfanato do CRARN e da mesma forma voluntária andava conosco, depois de ter sido abordado por uma pessoa local, veio até a nós e disse que antes de falarmos com o povo teríamos que pedir permissão ao Chief (chefe) da vila. Perguntamos onde poderíamos encontrá-lo e apontaram para uma área coberta no fundo da feira, onde havia um carro estacionado e algumas pessoas conversando próximo a ele.

Começamos a nos dirigir para lá, mas por um momento olhei para trás e vi que o Marcelo caminhava em outra direção. Ele ia em direção a um amontoado de postes de energia que estavam deitados no chão com moitas de capim nascendo ao redor, provavelmente mais uma promessa de luz não cumprida para mais um povo que ainda anda nas trevas do cristianismo-pagão.

O Marcelo, que era o mais branco ‘white-man’ entre nós, ficou ali de pé sobre os postes até que percebeu que aquela autorização não seria coisa de dois minutos e ele então veio até nós.

O povo também já vinha se encaminhando lentamente em nossa direção, com olhares curiosos, mas também desconfiados, por isso ainda mantinham certa distância.

Já havíamos dado o ponta-pé inicial com o Chief que, sentado numa cadeira de forma bem ‘espalhada’, exibindo uma bengala e sua barriga bem nutrida em se comparando com a maioria de seu povo, nos recebera com cordialidade quando eu disse que éramos missionários do Brasil. ‘DO BRASIL!?’ – disse ele. ‘Bom! Muito bom!’ repetiu com um sorriso no rosto.

Depois de uma breve menção sobre futebol e a vitória deles sobre o Brasil da qual se orgulham demais, introduzimos o assunto e disse o porquê estávamos ali. Enquanto mostrávamos a revista ‘Jesus and the Children’ e afirmávamos que Jesus era contra tudo aquilo, os sorrisos desapareceram imediatamente, todos ficaram sérios. Mas, de repente, ele voltou a rir só que agora com um sorriso de deboche e dizendo que nós não sabíamos do que falávamos.



Ele disse que ali mesmo na vila dele existiam muitas crianças bruxas, e disse que se a Bíblia afirmasse que bruxaria não existe ele acreditaria, mas que a Bíblia menciona bruxaria.

Então perguntamos a ele onde é que a Bíblia menciona bruxaria e a relaciona com crianças. E ele mencionava versículos e fazia cada interpretação que nos fazia doer os ouvidos. Chegou a dizer até que “a Palavra diz que o inimigo vem como lobo vestido de ovelha”, associando as crianças travessas que tem aparência inocente, mas um lobo dentro de si.

Cheio de indignação e espanto por falarem isto das crianças, da minha alma só saiu uma pergunta: “Como vocês tem a coragem de fazer isto?” Olhei para o lado e disse em português aos rapazes: “Esta é a coluna do mal aqui. A gente hoje não sairá daqui enquanto ela não cair”. Mas confesso que na minha pequena fé nos imaginei atravessando a noite em um debate com aquele Chief que parecia mesmo era gostar de conversar com os ‘white-men’ e exibir a eles seus “conhecimentos bíblicos”.

Nesta altura já estávamos cercados de pessoas da vila. Já não precisávamos mais da autorização, pois tudo já estava acontecendo. Foi quando o Chief pediu então um de seus amigos para pegar para ele sua maleta dentro do carro, de onde saiu uma Bíblia de estudos impecavelmente limpa e brilhando.

E ele mencionou outra passagem dizendo: ‘Em 2 Timóteo no capítulo 3 dos versos 1 a 5 diz...’:

Sabe, porém, isto: Que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.
Já percebendo onde ele queria chegar o Marcelo, lembrando que o Emmanuel tinha uma Bíblia dentro do carro, pediu que a pegasse, pois nós estávamos carregando somente os livros ‘The Good News of Jesus’ que continham somente os Quatro Evangelhos.
Neste meio tempo, o Chief foi dando sua interpretação da passagem ‘desobedientes a pais e mães’, ‘destes afasta-te’... Querendo justificar o fato dos pais estarem rotulando seus filhos de bruxos e os abandonando nas ruas.
Daí o Marcelo abriu na passagem e convidou ao Chief para relerem a passagem juntos. Dirigindo-se ao povo que já nos rodeava, em voz alta o Marcelo lia verso após verso e todos prestavam atenção. Mas quando chegou no verso 6 o Marcelo em uma pausa na leitura disse “agora prestem atenção!” e continuou a leitura:
Porque deste número são os que se introduzem pelas casas, seduzem e levam cativas mulheres néscias carregadas de pecados, levadas de várias concupiscências; que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade.
E, como Janes e Jambres resistiram a Moisés, assim também estes resistem à verdade, sendo homens corruptos de entendimento e réprobos quanto à fé.

Quando terminou de ler, o Marcelo apontou para uma criança no meio do povo e a chamou para o meio da roda.

Com sua mão sobre a cabeça daquele garoto o Marcelo perguntava ao povo, vocês acham que este menino é capaz de seduzir uma mulher? O Chief, em silêncio, fazia sozinho a releitura o texto.



As pessoas ainda meio com receio de se posicionar e vendo que seu Chief estava calado, timidamente só abanavam suas cabeças como quem diz ‘Não’.

O Marcelo, literalmente gritando, perguntava novamente ao povo: ‘VOCÊS ACREDITAM QUE ESTE MENINO CONSEGUIRIA SEDUZIR UMA MULHER?’



Finalmente ouvimos a voz do povo dizendo ‘NÃO’! E o Marcelo continuou... ‘Claro que não! Porque esta passagem está falando de homens adultos! Então arranjem outra passagem ou outra desculpa para fazerem o que estão fazendo com suas crianças, mas ESTA PASSAGEM NÃO!!!’



Aproveitando um momento de ‘silêncio’ comecei a mencionar as passagens onde Jesus abençoa e fala sobre crianças, todas mencionadas nas revistas ‘Jesus and the Children’ que começaram a ser distribuídas ao povo naquele momento. Enquanto eu falava, um senhor baixinho que estava no meio do povo saltou para o meio da roda, e olhando na direção do povo começou a traduzir o que eu falava, do inglês para o Ibibio – dialeto local. Talvez a maioria, mas nem todos os que ali estavam entendiam inglês e ele parece ter percebido isto e nem se voluntariou, ele simplesmente foi!



Coloquei a mão sobre o ombro dele e continuei a falar e ele a traduzir. Naquele instante, o Espírito Santo estava concluindo a obra. Somente uma pedrada da verdade lançada pelo Marcelo, no meio da testa daquele que se pensava um gigante, foi o suficiente para fazê-lo desabar. E, de repente, já não éramos nós que falávamos acerca daquelas coisas, mas o próprio Chief dirigindo-se ao seu povo começou a ensinar que as crianças não deveriam mais serem rotuladas de bruxas em sua vila. A obra estava completa. E chamando suas crianças à frente e pedindo aos pais que levantassem suas mãos na direção de seus filhos, convidamos a todos a orar e com eles oramos.



Antes de sairmos dali os fizemos prometer que não só não iriam mais rotular suas crianças de bruxas, mas também não iriam aceitar que ninguém de fora tentasse fazê-lo. Acaso alguém tentasse, que mandassem a tal pessoa embora. Também pedimos que pelo amor a Cristo e a sua Palavra que não deixassem de ensinar aqueles que os rodeiam acerca destas coisas também.



Fomos embora, maravilhados com o que Deus havia feito naquele lugar! Como alguém dentre nós disse: ‘foi como ver Atos acontecendo nos dias de hoje’. De fato o foi!

A Ele seja dada toda a glória! Para Ele não há nada impossível! Amém!

Leo Rocha
St. Albans – Reino Unido
02/02/2010

Nenhum comentário: